domingo, 22 de junho de 2008

A VILA

Blitz do Ministério do Trabalho e Emprego flagra trabalho infantil em matadouros

Entre maio e junho desse ano, fiscalizações do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) localizaram crianças e adolescentes trabalhando em abatedouros municipais em três cidades do interior do Rio Grande do Norte – Nova Cruz, João Câmara e São Paulo do Potengi. Além de abrigar trabalho infantil degradante – considerado um dos piores pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) – os matadouros não respeitavam condições sanitárias mínimas e estavam envolvidos com o mercado clandestino.
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Na minha feliz infância costumava brincar de vender peixe no tanque de casa. As pecinhas coloridas do lego eram os peixes e a faca era uma faquinha de plástico de rocambole Pullman. Até balança (quebrada) eu tinha. A brincadeira surgiu da minha admiração pela habilidade com que o casal chinês, da barraca de peixes da feira, manuseava a faca. Criança parece carregar beleza nos olhos e acaba admirando o trivial. Dessa admiração pode nascer a inventividade, como no conto “A ponte do meu rimão”, de Ana Maria Machado, onde um menino cria histórias que acontecem numa ponte que, na verdade, é uma tábua de madeira no quintal.

Será que as crianças que viraram notícia – por conta da fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) – transformavam as marretas em martelos de plástico, imaginavam que os bichos mortos iam para o céu dos animais ou que o sangue no chão era um rio? Existia alguma brincadeira possível ou beleza trivial dentro daquilo que foi chamado de “circo de horrores”? Provavelmente não. O que elas conhecem é a fome, que poderia ser morta com as sobras de animais. O que elas não conhecem é um direito só delas:

Art. 4º do Estatuto da Criança e do Adolescente: “É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária.”

Segundo artigo da Agência de Notícias dos Direitos da Infância (ANDI), o trabalho infantil “expõe a infância a uma condição moralmente degradante, prejudica a escolaridade”, além de marcar a vida de milhares de brasileiros fisicamente e psicologicamente. É claro que tudo isso é muito importante, mas eu ainda acrescentaria: o trabalho infantil não deixa a criança ser criança. E os trabalhos infantis mais degradantes, não deixam o ser humano ser humano. Até quando cometerão tão grave crime?

sexta-feira, 20 de junho de 2008

ESCOLA

Professores entram em greve contra decreto do governo paulista

No dia 16 de junho, os professores da rede estadual de educação iniciaram uma greve por tempo indeterminado em São Paulo. Segundo a APEOESP – Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo, a categoria pede a revogação do decreto 53037/08, que entre outras mudanças, restringe a transferência de professores ingressantes na rede estadual a partir de 2008 e impõe a aplicação de uma prova para a contratação de professores temporários – o critério anterior era os anos de experiência. As outras reivindicações já são familiares: reajuste salarial e melhoria nas condições de trabalho.

A tia Izabel, do pré, foi minha professora. Depois, na primeira série, conheci a tia Suzi. Na segunda série, mudei de cidade e a tia da vez era a Denise. Na terceira, foi a tia Talginha Na quarta série, não lembro mais se a chamava de tia, a professora era a Maria do Carmo. Uma homenagem justa seria eu citar todas e todos que me ensinaram tanto, mas sinto que a educação fundamental foi a mais importante para mim.

Algumas imagens permanecem na minha memória, entre elas, as das professoras saindo correndo da escola para pegar um ônibus para a faculdade de pedagogia. Outra imagem, que me comove até hoje, é a do semblante preocupado, da tia Denise, quando percebia que havia algum problema na aprendizagem de algum aluno. Franzia o cenho e ficava estática. Lembro dos lábios, cor de laranja, se abrindo lentamente, como quem tem uma solução. No entanto, eles se fechavam, aliás, era preciso pensar muito antes de interferir no delicado processo pedagógico que envolve uma criança.

De repente, 15 anos se passaram. Sim, parece muito tempo, mas foi repentino. Reencontro a professora Denise. Em um primeiro momento, foi uma grande alegria e ela tinha nos lábios o mesmo batom laranja. Contudo, o depois foi bem triste. Ele foi assim pela desencantada conclusão dela: “Não vale mais a pena ser professora”.

Saí de lá imaginando quantas vezes esse desalento acomete os professores do nosso país. Tentei animar a tia Denise, contudo, senti um vazio naquilo que tentei. Agora, é a greve paulista contra tudo aquilo que conhecemos: salas de aula lotadas, violência contra professores, salários baixos, precariedade estrutural, sistemas questionáveis de avaliação etc. E a novidade! Contra o decreto 53037/08 do governador José Serra, que praticamente joga o Estatuto do Magistério no lixo, e contra aquela secretária estadual de discurso moderninho.

Enquanto isso, o jornalismo continua sendo parcial e preconceituoso.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

CENTRO COMERCIAL

Crise dos alimentos segue sem reação

O aumento da produção de grãos entre 2006 e 2007 mostra que não há falta de alimentos; há intensificação das regras do mercado no comércio de alimentos. Entre os fatores responsáveis pela alta nos preços dos alimentos, estão a especulação financeira sobre o valor desses produtos e a preferência dos governos pelo agronegócio, em detrimento da agricultura familiar – responsável por cerca de 70% da comida dos brasileiros. Segundo a “Adital”, no ano 2000, havia cerca de 5 bilhões de dólares especulando em torno da variação do preço dos alimentos. Em 2007, esse valor passou para 175 bilhões de dólares.
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Infelizmente, a alta dos preços dos alimentos em escala mundial é algo que veio para ficar por um tempo. A Organização das Nações Unidas (ONU) não vislumbra perspectiva de uma solução a curto prazo para a crise (vale lembrar que o seu secretário-geral, Ban Ki-moon, parece não ter aceitado carona no veículo movido a biocombustíveis, cortesia do Presidente Lula). Em meio ao capital especulativo – que aposta na variação do preço dos produtos agrícolas –, os alimentos ganham valores financeiros alheios à fome que atinge cerca de um terço dos seres humanos. Em meio ao incentivo, por parte do governo brasileiro, do agronegócio, a agricultura familiar – nossa grande fornecedora de alimentos – está praticamente entregue à própria sorte.
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O pequeno produtor conta com uma linha de crédito muito atraente no banco. Conta com um amplo mercado consumidor. Conta com solo fértil e com chuvas. Conta com insumos agrícolas nas prateleiras dos mercados. Conta com um sistema que garanta a viabilidade econômica da iniciativa de produzir alimentos. No entanto, o produtor nunca conta que sucessivos empréstimos bancários podem tornar-se um ciclo, que pode acabar num endividamento que o impede de recorrer a novos financiamentos. Não conta que o mercado pode retrair-se e a procura, diminuir. Não conta com amplos períodos secos, que vêm se intensificando graças aos inconseqüentes desmatamentos. Não conta com os altos preços de adubos, sementes ou equipamentos. Não conta com práticas governamentais de assistência à iniciativa de plantar alimentos. Não.
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O produtor carrega o caminhãozinho e parte para São Paulo. Marginal Pinheiros. Ceasa. À frente dele, cinco caminhões; atrás, milhões deles. Nos caminhões, frutas, legumes, verduras, ovos e uma fome de almoçar. Finalmente, o produtor chega ao posto do setor em que vai negociar o preço dos seus produtos. Suponhamos: alho. O preço é este. Mas está muito caro – tem que baixar. Seu moço, isso é muito pouco e não vai dar para baixar. Ah, dá! Mas isso não paga nem o custo da produção. Pois então o senhor dá licença, que há milhões de outros caminhões com alho atrás do senhor para negociar.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

CENTRO ESPORTIVO

Há 50 anos, o Brasil ganhava a primeira Copa do Mundo

No dia 29 de junho, faz 50 anos que a seleção brasileira de futebol venceu a Copa do Mundo da Suécia. Na final, contra os próprios suecos, o “escrete” venceu por cinco a dois, e efetivou o título esperado desde 1950, após a derrota para o Uruguai em pleno Maracanã. Com muito talento, a equipe de Pelé, Garrincha e companhia foi a única de um país não-europeu a conquistar uma Copa do Mundo no “Velho Continente”.

Atenção para Gilmar, Bellini, Nilton Santos, Djalma Santos, Zito, Orlando, Garrincha, Didi, Pelé, Vavá e Zagalo. Atenção para Castilho, De Sordi, Mauro, Oreco, Dino Sani, Zózimo, Joel, Moacir, Mazzola, Dida e Pepe. Vicente Feola e sua comissão técnica. Todos. O primeiro dos “carrosséis”. Entre as melhores equipes de esportes coletivos de todos os tempos. O time que estabeleceu o “futebol arte” como regra do jogo. Ora, cinqüenta anos é tempo simbólico para, ao falar de nomes, gols e vitórias, lembrar a conquista da nossa primeira Copa do Mundo de futebol. No entanto, falta um nome nessa seleta lista de homenageados deste cronista (sic).

Mais do que a equipe do talento e da classe inquestionáveis de todos os jogadores, o “escrete” era principalmente o time de Pelé e de Garrincha. Do menino Pelé e do mané Garrincha. Pelé tinha dezessete anos – e quase nenhuma barba – quando encantou o mundo e foi coroado na final diante dos suecos, vitória por cinco a dois. Machucado, o rei estreou na Copa apenas na terceira partida, diante dos soviéticos. Com ele, estreava também no Mundial um certo mané de pernas tortas, a “estrela solitária”, Garrincha. Rebaixado à condição de reserva devido ao exagero nos dribles, Garrincha finalmente estava em campo. Com Pelé e Garrincha no auge, a seleção afastou o fantasma da eliminação na primeira fase da competição, e caminhou a passos largos rumo ao título. Mas o que é para mim falar do caminho trilhado pela equipe de Pelé e Garrincha sem mencionar o nome daquele outro jogador de tempos não muito distantes?

A seleção passou pelo País de Gales, pela França e, na final, indiscutível, pela Suécia. A vitória veio como um filho a uma mãe cheia de amor. No entanto, essa vitória poderia não ter vindo assim, sob a forma de taça; vitória, como muitos atestam por experiência própria, pode ser apenas participar. O que seria da idéia de time dos sonhos caso não houvessem trazido o título para Juscelino? Talvez Pelé fosse dito menino demais, e Garrincha mané demais por driblar demais. No entanto, com certeza, o brilho daquela reunião única de talentos não seria apagado sem o título.

A vitória se encarrega de erguer e consagrar seus vitoriosos. Mas não nos ludibriemos com ela: a vitória não tem nacionalidade; ela estava, mas não era brasileira naquela ocasião. Tanto que um brasileiro, um guerreiro, derrotado na Copa de 1950, esteve por todo esse tempo ausente de quase todas as listas de homenageados do futebol brasileiro, não de forma merecida. Como ele dispensa melhores apresentações, limito-me a, com muito carinho, apenas citar seu nome: Barbosa. Um vitorioso.

“Olha lá quem sempre quer vitória e perde a glória de chorar” (Marcelo Camelo)

terça-feira, 17 de junho de 2008

ASSEMBLÉIA

Tucanos oficializam chapa de Alckmin para a Prefeitura de São Paulo

Em convenção realizada no último dia 22, o PSDB definiu Geraldo Alckmin como o candidato da legenda à Prefeitura de São Paulo nas eleições de 2008. Na Capital, o partido (que estava dividido por conta do apoio de parte de seus delegados à candidatura de Gilberto Kassab) abre mão da histórica aliança com os democratas, que deve ser retomada no segundo turno das eleições.

Geraldo Alckmin teve nas pesquisas de intenção de voto as armas para, mais uma vez, vencer uma batalha interna no seu partido, o PSDB, por uma candidatura com seu nome. Ele bateu no peito, mobilizou medalhões tucanos e isolou a “dissidência” pró-Kassab. Conseguiu a oficialização de sua candidatura à Prefeitura. Para quem foi candidato à Presidência da República em 2006, Alckmin até que aprecia a arquitetura dos prédios do Anhangabaú – que, aliás, são conhecidos pelos jardins nos terraços.

Como todo candidato, Geraldo fez campanha mesmo antes da nomeação. Naquele dia, por exemplo, era jogo do Brasil pelas eliminatórias da Copa do Mundo: Brasil e Paraguai. Às vésperas da convenção do partido, vestido com a dez, Geraldo estava reunido com correligionários da periferia da Capital para assistir ao jogo – que acabou dois a zero para os paraguaios. A foto dos torcedores diante da televisão saiu inclusive na “Folha”. Dizem que uma imagem fala por mil palavras; eis a palavra que jorrou da foto: simplicidade.

Ao contrário do ex-candidato à Presidência, um torcedor como outro qualquer. Ao contrário de Alckmin, um Geraldo como outro qualquer. Ainda que atestemos sua perversidade, hoje, a publicidade funciona como um termômetro da nossa sociedade. Com certeza, foi a publicidade que suprimiu o “Alckmin” desse Geraldo simples que assiste ao jogo do Brasil na periferia. A marca de gente simples é algo tão desejado pelos candidatos que, na ânsia, acabam passando dos limites. No caso do jogo, o exagero era torcer sofridamente para o Brasil como Geraldo parecia torcer. Mesmo porque não há homem simples que torça para, decididamente, um time brasileiro de estranhos estrangeiros (as razões vão divergir, mas que não há torcida fanática, isso não há mesmo).Geraldo Alckmin, se eleito no fim do ano, terá sido em muito por conta da publicidade. Feliz a instância que eleger ele ou outro candidato por conta de sua visão de mundo, sua “macrótica”, suas propostas de governo. E feliz o dia em que a seleção honrar essa camisa honrada que já lavou por vezes a alma do sofrido e bom povo do Brasil.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

PARQUE MUNICIPAL

Minc prevê desmatamento de 15 mil km² da Amazônia em 2008

Em sabatina realizada pelo jornal “Folha de S. Paulo” no último dia 24, o Ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, afirmou que considera a possibilidade de o desmatamento entre agosto de 2007 e julho de 2008 ser da ordem de 15 mil km² – as previsões anteriores eram de 11 mil km². A entrevista durou cerca de duas horas e não citou questões relacionadas à preservação de outros biomas brasileiros, como o Cerrado.

Atrasado, achei um lugar numa das últimas fileiras do Teatro Folha. Estava ao lado de uma moça, em boa hora nipo-descendente; atrás de um homem barbudo; e umas duas fileiras à frente do repórter do “CQC”. Durante algum tempo, estive desconcentrado pensando na resposta que eu daria à maliciosa pergunta daquele repórter. A certa altura, eu já estava preparadíssimo. Então, comecei a prestar atenção no que falava Carlos Minc (e os jornalistas que o cercavam).

Falavam, é claro, da Amazônia. “Senhor Ministro, para quê serve a floresta intacta?”, perguntou o mais animadinho dos entrevistadores. “Uma pergunta ingênua, mas – considerando o conhecimento do brasileiro médio – necessária”, avaliou Minc, arrancando aplausos da platéia. Entre outras coisas, Minc falou que estamos destruindo espécies ainda não catalogadas, das quais ainda não conhecemos propriedades que possam ser úteis economicamente. Essa é a tônica do debate: tem que haver valor econômico. Outro entrevistador quis saber se não há uma desnecessária demonização do agronegócio quando se fala de preservação da Amazônia, o que poderia prejudicar a economia brasileira. Tive vontade de fazer umas comprinhas no belo e caríssimo shopping center que nos cercava.

Falou-se sobre como o Ministério iria proceder com licenciamentos ambientais, que, segundo Minc, seriam mais rápidos e mais rigorosos. Percebi que ele falava como simples administrador, um burocrata, e não como um idealista que fala em sonhos sem se mostrar constrangido, coisa que deveria ser muito louvável dos políticos. Medidas paliativas, política de compensações, discurso bem digestivo. O constrangimento era meu, senhores jornalistas, enquanto estudante de jornalismo. O constrangimento era todo meu, na condição de recém-qualificado investigador jornalístico do Cerrado. Ainda que tenham citado aleatoriamente o Cerrado, Minc, os jornalistas e o público estavam mesmo era falando de coletes. Quarenta e quatro coletes.

Ao final, não precisei da resposta planejada, do cabelo penteado nem do colete: o repórter do “CQC” entrevistou outras pessoas. Como não leram minhas perguntas durante a sabatina, voltei para casa pensando que, talvez, falar do Cerrado não era tão importante nessas conversas mais sérias. Quem sabe Minc não tenha falado sobre o bioma na ofegante entrevista ao “CQC”?